Sobre grupos sociais, tribos urbanas e outros ajuntamentos

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Por Oldemburgo Neto

Um grupo é um conglomerado de pessoas, caracterizado pela existência de um contato contínuo, com interesses em comum e sentimento de identidade grupal. Um indivíduo não é socializado apenas para viver em sociedade, mas para ocupar posições, desempenhar papéis sociais etc. Os grupos, enquanto objetos de estudo e análise em sociologia, são extremamente importantes porque as ações individuais são orientadas por ações de grupo, ou seja, compreendemos mais assertivamente um indivíduo quando sabemos a qual grupo ele pertence, quais as suas referências, que elementos de grupo formam sua identidade.

Os grupos podem ser primários ou secundários, a depender de especificidades de vínculo. Os primários, por exemplo, dizem respeito aos primeiros contatos do indivíduo, seja na escola primária, seja no próprio seio familiar. Têm como características a influência duradoura, a proximidade entre os seus componentes e relações bem marcadas pela intimidade, pela informalidade e  pela espontaneidade. Já os secundários são formados por um grande número de componentes sem a necessidade de proximidade entre eles, estabelecendo um contato categórico que muda mais rápido o comportamento dos integrantes. 

Além dos grupos primários e secundários, há também algumas outras formas de ajuntamento de indivíduos. A saber: agregados, categorias e tribos urbanas. Os agregados são marcados pelo caráter passageiro do ajuntamento. É uma massa com comportamento massificante, com enorme poder de influência em nosso comportamento imediato. Bons exemplos para ilustrar são as “olas” nos estádios de futebol ou mesmo aplausos da plateia em uma palestra. No universo dos agregados os nossos valores morais e ideologias são momentaneamente camuflados por esse poder de influência. As categorias, por sua vez, são o inverso dos agregados. Seus componentes possuem características em comum porém separados fisicamente. As profissões são exemplos. Delimitam nosso comportamento sem que tenhamos controle sobre isso. Fazemos concessões em nome do que representam nossas categorias diante de nossas ações. 

Os chamados grupos de referência, que nos indicam, por exemplo, quanto é o salário de um indivíduo, as vestimentas que ele usa, a música que se escuta, os hábitos alimentares e afins, nos levou ao surgimento das tribos urbanas. São microgrupos, uma espécie de rede de amizades onde pessoas com os mesmos gostos e preferências se unem e se ajudam, com uma maioria formada jovens com idade entre 15 e 29 anos. Transgressão e rebeldia são baluartes de muitas tribos urbanas, ainda que uma tribo seja diametralmente diferente ou mesmo oposta a outra, como headbangers e hippies, por exemplo. A lista é enorme e são muitas as tribos existentes no mundo: skatistas, góticos, skinheads, clubbers, geeks, hackers, lammers, cosplays etc. 

A minha tribo é o rock and roll. É a única tribo à qual me vinculo desde mais moço e, aparentemente, deve continuar sendo enquanto eu estiver vivo. Nela, ser um homem cabeludo é normal e não desperta olhares estranhos, ainda que eu não seja necessariamente avesso a olhares estranhos. Muitas vezes a estranheza das pessoas que não pertencem ou não compreendem minha tribo servem até mesmo de combustível para a afirmação dos valores, símbolos e ideologia aos quais me vinculo e posteriormente expresso. De fato, agora aos trinta, a gente perde um pouco daquela avidez pela auto-afirmação, mais comum à juventude, mas ao mesmo tempo aprende, com o passar dos anos, a viver o rock and roll com ares mais sutis, sem a rebeldia de outrora, mas com uma sagacidade rockística que vive em mim como uma espécie de antídoto, contra a cafonice e todos os dissabores que dela resultam.

Por ser a sociedade algo necessariamente dinâmico, a interação é o mais importante dos processos sociais. É neste processo que ocorre influência recíproca ou unilateral entre dois ou mais agentes sociais. A interação social leva ao contato, que é um processo de comunicação entre os indivíduos, simbólica, cultural e socialmente. Vale destacar que a falta de interação social e contato leva o indivíduo ao isolamento. 

Outro processo imprescindível à manutenção da organização e sobrevivência da sociedade é a cooperação, que garante a esta mesma sociedade um caráter de integração. Quando indivíduos, grupos e categorias não compartilham as mesmas metas, valores, crenças, atitudes e padrões de comportamento mas convivem pacificamente estamos diante do processo de acomodação. Para que haja cooperação, os indivíduos se acomodam às exigências socialmente estabelecidas, ou seja, para serem aceitos socialmente, os indivíduos também podem simular um comportamento que não corresponde ao seu acervo sociocultural. A acomodação, portanto, é deveras necessária visto que não há consenso absoluto.

Quando indivíduos grupos e categorias culturalmente diferentes permutam seus respectivos acervos socioculturais de modo a se tornarem semelhantes estamos diante do processo de assimilação. É a ideia de que as coisas mudam com o tempo. Ideias mudam. Pessoas mudam de opinião em nome de um bem maior ou por mero convencimento. Porém, nem sempre os indivíduos conseguem se aproximar uns dos outros por meio da cooperação, da acomodação ou da assimilação. Se esses três processos nos aproximam, existem também aqueles que nos afastam. A competição e o conflito são os processos marcados pela incompatibilidade de interesses e objetivos entre indivíduos, grupos e categorias. 

É importante dizer que todos esses cinco processos sociais não acontecem de maneira isolada, justamente por conta da dinâmica existente na sociedade. Essa dinâmica, marcada pela interação recíproca, é responsável por manter esses processos sempre em andamento, sempre contínuos. Tudo muda sempre o tempo todo. O mundo muda e nós mudamos junto com ele. A decisão de acompanhar essas mudanças com leveza ou resistência é algo que pode nos inspirar boas discussões, a depender do caso, sobretudo na sociedade atual, quando as trocas e interações estão ocorrendo de modo rápido e interconectado mesmo entre grupos com objetivos e interesses distintos uns dos outros.

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