Macunaíma e o inominável: as desvirtudes nacionais do anti-herói brasileiro no Brasil 2021 de você sabe quem

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Cena do filme Macunaíma, de 1969, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Nela vemos Macunaíma sendo interpretado pelo famoso ator brasileiro Grande Otelo, que atuou na primeira metade do filme, quando o personagem ainda é uma criança negra, antes de se tornar adulto e branco, a partir de quando passa a ser interpretado por Paulo José. (Foto: Domínio Público)

Por Oldemburgo Neto

O anti-herói Macunaíma é o retrato do próprio povo brasileiro. O herói preguiçoso, mulherengo, cheio de astúcia porém frágil. Incorpora o famigerado jeitinho brasileiro do qual muitos se vangloriam e tantos, entre os quais me incluo, se envergonham. O herói com pouco ou sem nenhum caráter, magistralmente revisitado e adaptado para as telonas sob direção de Joaquim Pedro de Andrade em tempos de Brasil do Cinema Novo. Um clássico da literatura brasileira que nasceu de um período inspirador de seu autor, Mário de Andrade, nos arredores da longínqua Araraquara, no efervescente interior paulista dos anos 20. 

A duplicidade de Macunaíma é a de muitos de nós diante deste Brasil dois mil e vinte: sucessivas mudanças mas com a sensação de que estamos permanecendo sempre os mesmos. Tempos em que amamos e odiamos com a mesma intensidade. Queremos nos livrar do Brasil mas o levamos gravado na pele, ora como um manto sagrado, ora como uma canga que a gente leva a uma praia paradisíaca, aos arredores de uma cachoeira ou a um piquenique no parque. Enquanto vivos, continuamos devorando e sendo devorados por este imenso rincão. Mais de nove décadas se passaram e esta obra de Mário de Andrade ainda dialoga com a atual conjuntura política e social brasileira com a mesma verve crítica e provocativa de outrora: continuamos à margem da democracia e participando do campo político internacional como meros capachos dependentes. Não há como falar em desvirtude nacional sem nos referirmos ao inominável atual presidente da república.

Para além de ser uma grande mistura de heróis da cultura indígena e tribal, a natureza ambivalente e contraditória de Macunaíma também está contida, escarrada e cuspida, no inominável presidente. O próprio nome do famoso herói sem caráter reforça a ideia: é composto pela raiz maku, que significa mau, e o sufixo ima, que significa grande. Bom e mau, corajoso e covarde, capaz e inepto. Sempre ambíguo mas, no caso do presidente, raramente ou quase nunca para o bem.

O inominável ‘você sabe quem’ (Foto: Domínio Público)

Não há nele nenhum elemento sequer que seja desconhecido por nós. É um enorme mal que nos mostra que tem coisa podre onde quer que esteja o homem. Me alicerça um fio de esperança pensar que uma espécie de ascensão civilizacional enquanto país e sociedade ocorrerá desta ou daquela maneira, ou seja, após passarmos exauridos por esse escárnio a quem jamais poderemos enxergar como normal ou necessário, porque não é, mas como um porre indigesto cuja ressaca parece não ter fim. Estamos combalidos. 

Pelas mãos de Mário de Andrade, Macunaíma foi a expressão que escancarou grandes reboliços de norte a sul, dada a grande movimentação desta personagem que nasce na Amazônia, onde recebe um talismã indígena conhecido como Muiraquitã, que se perde em algum momento, fazendo com que ele rume para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro a fim de recuperar o objeto. Pelas mãos do inominável presidente, regido pela ambivalência do real ou fake, do dito pelo não dito, o Brasil caminha para ser uma nação capenga que um dia se imaginou gigante. Macunaíma e o inominável se merecem e se espelham diametralmente porque são feitos de combinações e diferenças, semelhanças e opostos, sem se importarem como, porquê ou a quem vai doer seus inúmeros infortúnios. Ambos são heróis sem nenhum caráter: não são meus e provavelmente também não são os seus, mas há milhões entre nós que assim os têm, e é desta ambiguidade que devemos nos servir para compreendermos e vivermos o Brasil dois mil e vinte, que continua buscando uma identidade cultural nacional, algo que nos una como nação, uma sonhada e cada vez mais utópica soberania nacional em tempos de neoliberalismo e entreguismos de toda sorte.

Infelizmente seguimos divididos e sem conhecer a nossa própria história; e isso nos ajuda a entender muitas das tensões e desvirtudes nacionais que pautaram esta publicação. Em­bo­ra essas questões encontrem morada e origem na che­ga­da das pri­mei­ras ca­ra­ve­las em terras tupiniquins, es­se mal se ma­ni­fes­ta em mai­or ou me­nor es­ca­la em di­fe­ren­tes mo­men­tos de nos­sas vi­das desde então, es­pe­ci­al­men­te nos cur­tos pe­rí­o­dos elei­to­ra­is em que se es­cu­tam nas ur­nas vo­zes do além, que também são nossas.

O verdadeiro herói brasileiro talvez ainda esteja para nascer. O verdadeiro herói brasileiro talvez esteja fazendo reboliços por aí. O verdadeiro herói brasileiro só pode assim ser considerado por todos no dia em que esta nação passar a se orgulhar de sua miscigenação, sem se amar e odiar por isso ao mesmo tempo; sem o véu demodê, cafona e cada vez mais desnecessário da ala conservadora, que ainda não entendeu que, queira ou não, se os tempos mudaram, é preciso mudarmos junto com ele. O verdadeiro herói brasileiro pode ser um conglomerado de milhões em unidade, partindo de um processo que inclua, inicialmente, um resgate de nossa história e origem, passando por uma (des)construção identitária urgente que talvez nos conduza para um momento de genuíno reconhecimento do que somos sem nos curvarmos ao cânone europeu que por séculos nos regeu e ainda reverbera por aqui. O verdadeiro herói brasileiro também pode ser cada um de nós, seres em formação, desde que em nós haja o amálgama do que somos nus e crus, doces e bárbaros na medida certa, e sempre avessos à mesmice.

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