Respiros, resgates, antibolsonarismo & Picanha de Chernobill

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Texto especial para a Euphoria NewsLetter

O movimento de se afastar da sanha bolsonarista que ainda insiste em pairar sobre muitas nuvens próximas ou distantes a nós é necessário para (re)construirmos e fortalecermos a nossa vontade própria pelo protesto, pelas manifestações antibolsonaristas e anti todo esse estado de coisas, porque só o antibolsonarismo não basta. Um rock do bom salva tanto quanto qualquer sorte de droga e continua sendo um importante grito pela liberdade, nos faz brincar um pouco com nossas amabilidades e violências, dilema que nos parece perene e eterno. É preciso respirar e se resgatar o tempo todo.

Por Oldemburgo Neto

Às vezes a gente precisa sair do nosso lugar pra poder dar um respiro, se resgatar de algumas coisas, para logo depois continuar seguindo nossa vida adiante. Às vezes a gente faz isso indo a um boteco na esquina e tomando um drinque, às vezes pegamos a estrada com ou sem destino, com a única premissa de que o lugar seja onde a natureza exubere-se aos nossos pés. Não importa. Um respiro e um resgate podem acontecer a qualquer tempo e em qualquer lugar, inclusive numa selva de pedras a três mil quilômetros de casa: a Paulicéia. 

Durante viagem curta a São Paulo, senti nas ruas e no ar um clima hostil e avesso à sanha bolsonarista que ainda explode aqui nos arredores de casa, no gabinete jatiucano que hoje estampa uma bandeira vermelha na varanda com um “Fora Bolsonaro” escrito em alto e bom som porque é quase que também um grito, necessário demais para o momento que estamos atravessando. Ter percebido e sentido isso foi esperançoso, fez bem, alimentou uma fomezinha de manifestação por tudo aquilo que a gente acredita que é melhor pro nosso povo e pro nosso país sofrido. Tô sentindo falta de sentir isso no ambiente maceioense. O que está faltando pra isso? 

Esse foi um bom resgate que eu fiz, e ainda bem que isso não entra no limite de peso máximo de 11kg imposto pelas companhias aéreas para uma bagagem de mão, a única coisa que eu tinha direito a carregar comigo para retornar a Maceió em tempos de aviação comercial extremamente predatória quando o assunto é comer o nosso dinheiro: agora paga-se por absolutamente tudo que há pouco tempo era cortesia boba, e paga-se muito, dentro e fora do avião. Não conte mais com gratuidades que vão desde a simples escolha de um assento na aeronave a restrições de peso e bagagens para despachos. Vale demais lembrar aqui que o despresidente acabou de vetar a volta do despacho gratuito em voos, uma verdadeira canalhice alinhavada com o lobby empresarial do qual é refém e aliado nessa frente composta por inimigos do povo e da pátria.

Um respiro e um resgate a gente traz com a gente dentro do coração, das nossas mais sinceras entranhas, que nos fazem sentir, e tudo isso não se mede, não se pesa, mas faz com que a gente volte pra casa com a sensação de que encontrou e vivenciou tudo aquilo que era preciso viver naquele momento para voltar aos ritos da vida cotidiana e rotineira, que também me fazem um bem danado afinal, porque disso também sinto falta quando estou longe.

Uma grata surpresa nas andanças pelas ruas de São Paulo foi ter encontrado a banda de rock Picanha de Chernobill se apresentando e reunindo uma galera ao som de um rock setentista à la Free ou Deep Purple, uma mistura sonora que faz a gente viajar ora numa visceralidade crua de riffs sujos e potentes, ora em pequenos transes melódicos que contam com doces coros vocais. É uma espécie de encontro entre amabilidade e violência que o rock setentista e tudo que o representa faz como nenhum outro gênero. Tudo isso alinhado a uma estética visual e performática com todos os pés na moda que nos trouxe as calças boca de sino, a liberdade como lema, a licença para usar e abusar das cores, e artigos woodstockianos para compor o traje com classe e ousadia, sempre brincando com esses dualismos sem perder a mão. Esse foi mais um respiro e um resgate: um rock do bom salva tanto quanto toda sorte de droga, e também não pesa na bagagem de mão. Se fudeu, Latam! Se fudeu, Bolsonaro!

A Euphoria, para além desse maravilhoso trabalho de reunir gente fina, elegante & sincera pra compor o time de escritores de uma newsletter, também atua no segmento de vestuários, com roupas e acessórios inspirados no bom e velho rock and roll, e é lá que vou procurar umas peças pra compor os looks setentistas nos palcos com o Alma de Borracha: separa aí, Regiane, duas calças boca de sino, umas batas e uns coletes retrô e vamos vestir o quinteto roqueiro mais sessentista, setentista, oitentista, retrô, velho e “mophado” dessa cidade com o classudo & ousado que essa estética e o próprio rock sugerem e que a gente tanto curte usar e expressar em cena, no palco, mas também fora dele.

Aqui, a essa altura do texto pra você que chegou até esse parágrafo, estamos, eu e você, diante de outro respiro e outro resgate que acabaram de me acontecer: o do cronista adormecido ou pouco provocado. Acorda, homem! Bora voltar a escrever crônica como ofício dos mais prazerosos desta vida, desengavetar velharias boas ou produzir as coisas novas sob a influência do agora. Misturar passado, presente e futuro com apontamentos ora doces, ora suaves, ora amargos, ora indigestos. Colocar pra fora com a vontade atroz que os avessos como eu têm de lutar e reivindicar por direitos e contra qualquer afasia paralisante de nosso exercício de livre pensar e expressar, ato tão importante mas que anda meio surrupiado, desmobilizado em algum nível, cooptado por um lado, perseguido por outro, ameaçado e reprimido em uma (des)medida (des)proporcional ao seu ativismo, à sua denúncia, ao seu protesto. Salve, Dom e Bruno! A morte de vocês não foi em vão na Amazônia! Mais cedo li um posicionamento muito certeiro sobre esse assunto: não fosse uma das vítimas um jornalista inglês, estaríamos diante de mais um caso em que um indigenista brasileiro é vítima silenciada pela violência covarde e tudo ficaria por isso mesmo. Jornalistas e índios, assim como tantos outros segmentos organizados da sociedade civil, estão na mira dos inimigos da democracia, da liberdade e do respeito ao pluralismo que faz do nosso povo a nossa maior riqueza. Li também nos muros de São Paulo, em um lindo grafite nos arredores do Edifício Copan assinado pelas artistas Bruna Serifa (@serifa_), Mariana Mais (@mari_mats), Cristina Pagnoncelli (@crispagnoncelli) e Mariê (@mariebalbinot), que é preciso resistir e ser livre, e perambulando pelo Museu da Língua Portuguesa dei-me defronte a um grande letreiro que formava a palavra “Lute”. Dois avistamentos , distintos, mas que compõem o que nos é imperativo para já.

Para encerrar esse primeiro ato de nossos encontros periódicos, quero tecer alguns agradecimentos. A começar pelo convite que recebi da Regiane para fazer parte desse lindo projeto, e pela honra em poder ocupar, a partir de agora, as caixinhas de email de todos vocês com o que se passa diante dos olhos e da mente deste voraz leitor metido a escrever alguma coisa que se salve ou que me salve de alguma coisa. O e-mail é uma das melhores invenções do mundo cibernético oldschool que a gente tanto ama e não pode cair no ostracismo de outros mensageiros que já se foram. Vida longa ao email e à nossa mais nova locomotiva pensante, roqueira e com verdadeiro afã por tudo aquilo que é anti-cafona e anti-cretino nesse mundão. Evoé, NewsLetter Euphoria! É chegado o tempo de circularmos nossas ideias por aí. Get move & rock on!

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