O que precisamos saber sobre cultura e socialização?

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O Balaio Cultural faz uma reflexão sobre a cultura e o processo de socialização sob os espectros da sociologia e da antropologia para entendermos os impactos desses fenômenos no comportamento humano em Émile Durkheim e Sebastião Vila Nova

Por Oldemburgo Neto

Como premissa básica é importante destacarmos que, sob os espectros da sociologia e da antropologia, o sentido da palavra cultura difere de outros sentidos mais afins ao senso comum, que não raras vezes reforçam a ideia de cultura como algo relacionado à arte, ao erudito, a uma reservada casta intelectual que detém conhecimentos, possui acesso a leituras e, portanto, “tem cultura”.

Sob o olhar sociológico e antropológico, a cultura deve ser compreendida de maneira mais abrangente, o que não significa desprezar aquilo que habita o imaginário coletivo, mas sim se debruçar sobre esse “todo” de significados sem fazer juízo de valor ou hierarquizar a importância desses sentidos, visto que na linguagem sociológica a cultura é tudo aquilo que resulta de uma criação humana. Nesse sentido, vale destacar a necessidade de empregar à analise sobre cultura o relativismo cultural em oposição à visão etnocêntrica, ou seja, afastar o olhar preconceituoso e entender a diversidade cultural sob a perspectiva do respeito às diferenças e aos códigos, hábitos e costumes de cada grupo social, consoante ao pensamento de Anthony Giddens, um dos maiores colaboradores do campo sociológico na era moderna. 

A cultura é um elemento que determina comportamentos nos diversos grupos sociais, seja no modo das pessoas se vestirem, na maneira de expressar a fé, na forma de se livrar de seus excrementos, nas linguagens faladas, no alimento que se come no Brasil que pode ser diferente do que se come na China etc. Todos esses processos culturais são mutáveis com o passar do tempo e estão em constante transformação mediante as interações que o homem experiencia consigo e com o mundo social à sua volta, seja travando contato com o que está próximo ou distante dele, sobretudo no contexto globalizado em que vivemos. Algumas afirmações são importantes nesse exercício de pensarmos a cultura, tais como: “todas as sociedades têm cultura”, “só o homem possui cultura” e “a cultura, compreendendo conhecimentos, técnicas de transformação da natureza, valores, crenças de todo tipo, normas, é, pois, o modo de vida próprio de cada povo”. 

Podemos dizer que a cultura tem relevância direta no processo de socialização humana, interferindo no comportamento e no código de conduta tanto de um único indivíduo como também de um grupo de indivíduos, subsidiando os processos de interação social e caracterizando-os conforme suas peculiaridades de hábitos e costumes, seja em função de uma convenção social, de uma necessidade humana ou mesmo de um compromisso moral que atende a uma noção de decoro, visto que a cultura também pode criar e moldar as necessidades humanas em um espectro simbólico, provocando nas pessoas, por exemplo, uma ideia de “satisfação psíquica originada na cultura”, defendida pelo sociólogo brasileiro Sebastião Vila Nova. 

Quando nascemos, precisamos aprender e introjetar ao nosso modo de viver aquilo que se convencionou chamar de comportamento “humano” ou “civilizado”. Diferente do que acontece com os animais, os padrões de comportamento nos homens não são decorrentes da genética mas sim frutos de um construto social criado pelos próprios homens através da socialização. 

A socialização é o que nos difere dos animais. Sem ela, seriamos iguais a qualquer outro animal. Em outras palavras, podemos dizer que a natureza humana não surge no nosso nascimento mas sim a partir da incorporação dos códigos estabelecidos na socialização. Há na historiografia muitos exemplos de seres humanos que foram criados com animais selvagens como lobos, ursos e macacos, onde fica demonstrado o caráter também selvagem em crianças e homens encontrados vivendo nestas situações. Uma criança que cresce sem contato humano não é, portanto, socializada, e isso implica dizer que possivelmente haverá diferenças marcadas em seu comportamento, como a ausência da fala, rejeição a vestuários, dificuldades de cognição para distinção de objetos, locomoção como quadrúpede, entre outras características diferentes do que é tido como tipicamente humano. 

O processo de socialização se dá pela imposição da sociedade ao indivíduo quanto aos seus padrões de comportamento, princípios e valores, podendo interferir tanto no âmbito social quanto no âmbito fisiológico, a exemplo da etiqueta social ao comer à mesa ou à maneira como nos posicionamos no vaso sanitário, respectivamente. Em suma, esse processo nos condiciona a seguir um conjunto de regras que, quando não obedecidas, tendem a sugestionar uma “animalização” da conduta humana como sendo estranha à ideia de convivência civilizada.

Esse entendimento coaduna com o que Émile Durkheim, célebre pensador da ciência social moderna, entendia sobre a socialização, quando apontou que as regras da sociedade tornam-se as nossas regras, bem como seus costumes passam a ser os nossos e, nos casos em que se viola essas regras sociais, esta sociedade age no sentido de punir essas condutas. Quando um indivíduo incorpora, por fim, o conjunto de normas e regras determinados pela sociedade ao qual pertence tem-se que há a socialização primária, que diz respeito às regras iniciais do convívio em sociedade, enquanto que os processos que introduzem o indivíduo em um grupo social específico é chamado socialização secundária. 

Desse modo, vemos que a cultura e a socialização revelam o modo que o homem convive com o todo, sendo ele, o homem, a única espécie a se submeter a um conjunto de normas coletivamente estabelecidas, se moldando a essas regras que estão em constante transformação e que têm o poder de influenciar as relações sociais. A sociedade, portanto, na precisa definição de Vila Nova, “não é apenas o que as pessoas e grupos fazem entre si; a sociedade é também o que as pessoas acreditam que ela seja ou, sobretudo, que ela deva ser”. 

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