Especial Formação Social de Alagoas: diálogos e reflexões a partir da leitura de autores clássicos e contemporâneos da historiografia alagoana

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Por Oldemburgo Neto

Entender o papel do açúcar, produto determinante na construção dessa compreensão histórica, é imperativo, bem como saber os motivos pelos quais a coroa portuguesa escolheu esse produto, àquela altura, no Brasil Colônia. O açúcar reunia todos os predicados de que Portugal necessitava para atender às suas demandas econômicas. Portugal já era o maior produtor de açúcar do mundo desde antes da chegada ao Brasil, quando a produção era feita na Ilha da Madeira. O açúcar era um produto cuja produção e comércio eram feitos, com exclusividade, pelos próprios portugueses e, para além de sua produção por aqui resolver uma carência de mão-de-obra, também era capaz de atrair investimentos externos. Alguns fatores foram determinantes para o investimento dessa especiaria em solo brasileiro: condições ecológicas favoráveis, muita terra para expandir a produção e proximidade com os centros consumidores. O açúcar era o produto de maior valor comercial no mundo e o Brasil, após consolidação da empresa colonial, logo passou a ser o maior fornecedor desse produto, o que despertou interesse internacional e motivou até mesmo a invasão holandesa à capitania de Pernambuco, também chamada de “Zuckerland” em alguns registros, que significa “terra do açúcar”. 

Mesmo não sendo Alagoas exatamente o epicentro da invasão holandesa, que foi marcadamente mais forte no que se compreende como a cidade do Recife e Olinda nos tempos de hoje, não podemos dizer que nosso pedaço de chão esteve distante do que reverberou a partir desse importante episódio de nossa história. Alagoas já era território livre da presença holandesa mesmo quase uma década antes da capitulação flamenga. Àquela altura havia pouca presença social e econômica holandesa em Alagoas, visto que a maior parte da produção de açúcar se concentrava mais ao norte, nas várzeas dos rios Capibaribe, Beberibe, Formoso, Jaboatão e Una. No território alagoano, a presença holandesa foi mais intensa a partir do rio Santo Antônio até Barra Grande, hoje Maragogi, justamente pela proximidade com Recife.

Ainda assim, foi um alagoano de Porto Calvo o predestinado a entrar para a história do Brasil a partir da presença holandesa por aqui. Domingos Fernandes, popularmente conhecido como Calabar, foi um bravo alagoano portocalvense que se posicionou ao lado dos holandeses contra o domínio português, mesmo depois de ter servido às tropas portuguesas durante três anos, no período de abril de 1632 a julho de 1635. Era descrito pelos agentes de propaganda holandesa da seguinte forma: “um bravo e inteligente cabo de guerrilhas, que conhece a fundo o território e só se colocou de nosso lado por convicção”. Calabar teve participação importante na guerra entre portugueses e holandeses, conduzindo as tropas invasoras a muitas expedições vitoriosas, a exemplo da tomada de Igarassu, segunda cidade mais importante da capitania naquele tempo, onde aplicou estratégias de contraguerrilha obtidas durante sua experiência militar anterior com os portugueses. Calabar foi decisivo nos avanços holandeses no Brasil e, por esse motivo, fora duramente perseguido até a sua captura em sua cidade natal, onde foi submetido a um tribunal militar, condenado, enforcado e esquartejado. Para uns, o maior traidor da história. Para outros, líder de guerrilha que lutava contra a colônia mesmo estando a serviço de outra.

A invasão holandesa durou 24 anos, até que a classe senhorial, alinhada aos interesses da coroa portuguesa, foi responsável por mobilizar suas forças de trabalho na defesa de seus interesses comerciais. A expulsão dos holandeses não foi resultado de uma manifestação de massa ou de patriotismo dos senhores de engenho, mas sim de uma insatisfação desses escravistas e latifundiários ante as condições impostas pela holandesa Companhia das Índias Ocidentais, que até então estava tomando conta dos negócios do açúcar. Para tanto, os senhores de engenho recorreram à opressão que já exerciam e contaram com apoio da igreja católica, que ajudou a consolidar naquela população um discurso unificador e contrário à presença holandesa. 

Também é impossível remontarmos aos séculos 16 e 17 sem mencionarmos outro importante acontecimento em terras alagoanas: o Quilombo dos Palmares. Foi um verdadeiro levante de oprimidos em busca de liberdade. Sua existência, por si só, estimulava a revolta desses povos, encorajava oprimidos para se aquilombarem nas matas das serras e juntos realizarem ataques aos senhores de engenho e suas propriedades. Os quilombolas se organizavam na tentativa de garantir sua proteção mas também atuavam desarticulando ações que subsidiavam a classe senhorial. Ao passo que a presença de um quilombo politicamente organizado ocupava cada vez mais espaço e relevância no território, crescia a insatisfação dos colonizadores portugueses (e também dos holandeses), que se viram ameaçados por uma nação negra independente do controle da coroa. O Quilombo dos Palmares representa a maior e mais importante insurreição escrava da América do Sul. É bem verdade que por aqui também ocorreram outras revoltas a exemplo do Quebra-Quilos e da própria Cabanada, ambas já no século 19, que em muito dialogavam com a luta dos quilombolas. Estamos falando aqui dos chamados “povos das matas”, os cabanos, que representavam a luta de povos indígenas, negros escravos e homens brancos pobres do campo. Dirceu Lindoso, célebre historiador alagoano, revisita a historiografia alagoana e identifica, no que diz respeito ao povo negro e cabano, discursos alinhados às elites econômicas e políticas, que desqualificavam os atores desses importantes acontecimentos da história alagoana, nordestina e brasileira. É imperativo dizer que, quando os estudos históricos sobre Alagoas começaram, a ótica conservadora era dominante nos discursos registrados com alguma oficiosidade. 

Somente muito tempo depois, mais de um século para ser mais preciso, outros autores problematizaram essa questão. Lindoso é um desses alagoanos que reivindica a Cabanada como sendo o oposto daquilo que fora referenciado, no passado, por outros conterrâneos como Thomaz Espíndola, por exemplo, que atribuía a alcunha de selvagens aos homens e mulheres que participaram da Guerra dos Cabanos. Moreno Brandão e Craveiro Costa, dois importantes nomes da historiografia alagoana, também não escaparam dos vícios elitistas e condenatórios dessa revolta popular. Brandão definiu a luta do povo negro e cabano como uma “explosão grosseira de banditismo inconsciente”, ao passo que Costa corroborava com discurso semelhante ao dizer que os cabanos eram “bandoleiros contumazes, negros evadidos do eito”. Esse olhar enviesado, ideologizado em prol das classes dominantes, reservou a esses povos um lugar de banditismo social, distante do real propósito destas importantes revoltas, que foram movimentos contrários à escravidão e ao latifúndio, uma luta dos pobres pela gente pobre e sofrida que habitava significante parcela de nosso território. Lindoso se soma a outros historiadores alagoanos como Décio Freitas, Luiz Sávio de Almeida e Marcus Carvalho para recolocar, com honestidade e fidelidade aos fatos, as populações que integravam o grupo dos negros e cabanos em seus devidos lugares na história, com abordagens não condenatórias ao movimento mas sim favoráveis ao contexto de luta desses povos. Os escritos de Lindoso, que lamentavelmente nos deixou em 2019, são de leitura obrigatória para o mergulho nos meandros de nossa formação social sem os véus do obscurantismo. 

Ainda no campo da presença negra em Alagoas, a partir da leitura de Rachel Barros temos que, na historiografia clássica de Alagoas que corresponde ao período nascedouro da República no país, os negros eram trabalhadores em busca de algum progresso por meio das relações comerciais, já em Maceió como capital e não mais “Alagoas” (Marechal Deodoro). A crônica alagoana se atém a dizer que os negros em Maceió eram, por exemplo, os “libertos da escravidão que se reuniam na Rua do Comércio”. Há relatos, ainda de acordo com a crônica, de negros e negras vendendo quitutes como tapioca, beijus, bolos de milho, grudes, broas, sequilhos e cocadas. Já na literatura, a presença negra é percebida enquanto empregado no mundo do branco, exercendo uma figura de subjugação típica do contexto social de uma população que recém tinha saído da escravidão. Pouco se produziu intelectualmente sobre a presença negra em Maceió, estando essa produção muito mais voltada à participação do negro em episódios isolados, como o próprio Quilombo dos Palmares, restando pouco ou quase nada sobre a vida social e cultural do negro em nossa historiografia, o que, por si só, nos instiga a repensar e investigar as razões desse desinteresse face à riqueza e importância dessa população nos vários capítulos que contam a nossa história. O negro é parte indissociável de nossa formação social e ainda hoje urge à comunidade científica e à sociedade civil a busca por esses resgates históricos, no sentido de preservarmos nossas memórias e compreendermos nossa gente e o nosso lugar. A ausência de mais bibliografias sobre o tema não nos diz pouco, diz muito. Felizmente hoje já temos em Alagoas muitos grupos de pesquisa dedicados a esse tema para um constante trabalho de investigação, resgate, reflexão e memória. É preciso fomentar essas iniciativas e ampliar seu alcance no sentido de que a formação educacional por aqui esteja intimamente conectada com a nossa verdadeira história, daí a urgência e a necessidade da pesquisa científica e das políticas públicas.

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