Entrevista com Renato Janine Ribeiro

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Por Oldemburgo Neto

De passagem por Maceió, Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação durante o governo Dilma Rousseff e atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) conversou com o Balaio Cultural e falou a respeito do atual estado das coisas no Brasil às vésperas de palestrar no palco do Teatro Deodoro, nesta quarta-feira (3), às 19h30, como parte da programação do evento Diálogos Contemporâneos.

Renato Janine Ribeiro é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e já publicou 14 livros ao longo da carreira. Por sua vasta trajetória profissional tanto no mundo acadêmico quanto nos gabinetes do poder federal, é uma importante voz no debate nacional sobre ciência, educação e pesquisa. 

Em entrevista exclusiva ao Balaio Cultural, o paulista de 71 anos comentou sobre o recente corte de recursos federais para a pesquisa no Brasil, autorizado pelo Ministro da Economia, Paulo Guedes, por meio do Projeto de Lei 16/21 (PLN 16/21), avaliou o discurso dos brasileiros anti-ciência – a quem se refere como “ignorantes arrogantes”, – e refletiu sobre pandemia, vacinas e recrudescimento da ala conservadora e neopentecostal no país.

Balaio Cultural: O tema de sua palestra em Maceió abordará o Brasil como um grande consumidor de obras literárias voltadas à religião, com destaque para o fenômeno atual da ala neopentecostal. Qual o sentimento por vir à capital alagoana e o que pensa sobre a dicotomia desse fenômeno neopentecostal sob a ótica da ética?

Renato Janine Ribeiro: Estou muito contente. Maceió é uma cidade que eu conheço, estive aí várias vezes, tanto a trabalho como a lazer. Bom, a espiritualidade não pode ser o reino do ódio. Todas as religiões possuem seus apóstolos do ódio. É preciso ter em mente não apenas aquilo de ‘não fazer o mal’, mas também o ‘não deixarás que o seu irmão morra de fome’. Esse é um ponto crucial da ética, acudir os mais humildes.

Balaio Cultural: O Ministério da Economia provocou um corte drástico em recursos aguardados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Dos R$ 690 milhões previstos por meio de um projeto de lei, apenas R$ 55,2 milhões foram direcionados para a pasta. O corte nos recursos pegou a comunidade científica de surpresa?

Renato Janine Ribeiro: Recebemos essa notícia com muita surpresa. Apesar de sabermos que esse governo não tem na educação e na ciência as suas prioridades, ninguém imaginava que na última hora da votação do PLN 16/21* o ministro da Economia mudasse a destinação dos recursos para pulverizar o valor em várias áreas. Isso causou nossa reação, com dois dias de protestos. Como o governo até agora não mudou a sua política, preparamos outro protesto pro dia 11 de novembro. Já no último dia 26, a SBPC promoveu diversas aulas magnas mostrando os benefícios que a ciência nos traz. 

* PLN 16/21 é um projeto de lei do Congresso Nacional que abre crédito suplementar de R$ 690 milhões para vários ministérios. Antes de ser aprovado, foi modificado pelo Ministério da Economia e reduziu o valor originalmente alocado para pesquisa para atender outros ministérios.

Balaio Cultural: A comunidade científica brasileira trava hoje uma dura batalha não só contra os problemas de ordem orçamentária mas também contra notáveis inimigos da ciência. Como virar esse jogo? O que fazer com essa fatia da sociedade brasileira que insiste em um obscurantismo anti-ciência? 

Renato Janine Ribeiro: É preciso um grande trabalho de conscientização. Como pode uma pessoa acreditar que a terra seja plana e utilizar um GPS? Acredito que uma das boas estratégias seria mostrar que os confortos tecnológicos que as pessoas desfrutam são resultado da ciência. Se as pessoas têm uma vida melhor é graças à tecnologia, com medicamentos, vacinas, remédios, o pix, enfim, tudo que veio pra facilitar a vida das pessoas se deve à ciência. Mas há um outro lado que é difícil. Há pessoas que são muito obstinadas. Uma das coisas muito graves do período recente é uma espécie de ignorante arrogante, gente que é imune a argumentos, como o ex-presidente Trump, e que usam fatos alternativos, não fatos próprios. Você pode até ter opiniões diferentes mas não pode divergir dos fatos. São pessoas imunes a qualquer argumento, a qualquer prova inclusive. 

Balaio Cultural: Recentemente, o governo de Cuba autorizou a vacina Abdala (Soberana 1 e 2) e a ilha caribenha tornou-se o primeiro país latino-americano com imunizante próprio para Covid-19. Por que o Brasil ainda não possui uma vacina própria contra a Covid-19?

Renato Janine Ribeiro: Ótima pergunta. Veja Cuba, um país pequeno, pobre se comparado ao nosso, enfrentando muitas privações, consegue fazer vacinas, enquanto o Brasil tem uma comunidade científica muito maior e não fez vacinas, porque o governo falhou. Perdemos uma grande oportunidade. Ciência custa dinheiro. Quando alguém acha que a educação é cara, veja o preço da ignorância (risos). 

Balaio Cultural: Obrigado pela entrevista e até quarta-feira. Que mensagem você deixa para os nossos leitores?

Renato Janine Ribeiro: Muito obrigado! É importante dizer quea pandemia não cessou. As vidas salvas foram salvas graças à ciência. A ciência salvou a vida de quase 400 milhões de pessoas. Essa é uma fase muito importante para mostrarmos a importância da ciência na defesa da vida. A gente ainda tem mortes desnecessárias, porque muita gente deixou de ser vacinada, deixou de tomar os devidos cuidados com a saúde. Na Europa está se falando em uma nova onda, até porque está chegando o inverno por lá. Quando não se tomam medidas sérias, é possível surgir mais variantes. Precisamos unir as pessoas que são a favor da vida.

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