Da janela lateral

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Por Oldemburgo Neto

Fernando Brant, jornalista, músico e um dos expoentes do movimento musical conhecido como Clube da Esquina, do qual também faziam parte nomes como Milton Nascimento, Beto Guedes, Flávio Venturini e Lô Borges, compôs a letra de Paisagem da Janela, um dos maiores clássicos assinados pelo supergrupo mineiro surgido em Belo Horizonte nos idos dos anos 60. Clássico que posteriormente foi revisitado e regravado por alguns desses mesmos músicos em carreira solo, a exemplo da versão do próprio Lô Borges, autor da melodia da canção. 

Trago a referência dessa música ao texto porque o exercício de pensar criticamente aquilo que observamos me remeteu diretamente aos primeiros versos da canção. “Da janela lateral do quarto de dormir / Vejo uma igreja, um sinal de glória / Vejo um muro branco e um vôo pássaro / Vejo uma grade, um velho sinal”. O que eu mais gosto nas composições do Fernando, que escreveu tantas outras canções maravilhosas do Clube da Esquina, é a forma de  falar de si mesmo e do mundo se valendo de um quê de metalinguagem, de modo que sem essa fagulha do olhar crítico somos levados a crer que a música se resume a alguém que apenas descreve a paisagem da janela do quarto onde dorme, desprezando um todo de significados que está por trás de frases e versos que, para além de nos dizer o que o compositor vê, revelam também, no caso desta música, duras críticas aos governantes, à censura e à repressão no regime militar.

Então que metalinguagens eu poderia utilizar num texto jornalístico pra conseguir o que o Fernando conseguiu com a licença poética de que goza o ato de escrever música? Essa é uma questão a se pensar com mais carinho e com mais tempo para uma produção textual futura. Diferente da paisagem que é pano de fundo na composição do Fernando, aqui da minha janela não são os elementos barrocos e nem um muro branco o que vejo, mas sim uma típica paisagem urbana, rodeada por residências e estabelecimentos comerciais, casas com muros diversamente protegidos por cercas elétricas, espetos ou grades, e edifícios de construção e projeto arquitetônico mais recentes que os das casas, com porteiros físicos ou remotos. Com sorte, há um espaço entre alguns desses prédios que me possibilita uma vista privilegiada para o mar de Jatiúca, bairro onde vivo há mais de vinte anos, entre mudanças de endereços, mas nunca de arrebalde. 

A vista da minha janela foi determinante para eu escolher viver no apartamento onde moro atualmente. Lembro do dia que vim conhecê-lo quando estava à procura de uma nova morada. Depois de entrar na sala, meu primeiro movimento foi me dirigir à janela para ver a vista. Naquele momento, tive certeza de que aqui me fixaria: um (re)cantinho no segundo andar do Edificio Latitude 10. Daqui eu vejo uma vizinhança que destoa um pouco de uma ideia de Jatiúca “pontaverdizada”, por assim dizer, onde uma construção imagética de muitos prédios e poucas casas logo nos surge à mente, além de uma fácil associação do bairro a uma casta endinheirada de moradores, o que até certo ponto não deixa de ser verdade, mas qualquer generalização nesse sentido não se sustenta de maneira absoluta porque há também por aqui uma vida cotidiana de gente humilde. Paira ainda um certo clima de bucolismo, talvez resquícios dos ares de sítio que originaram o próprio bairro de Jatiúca, uma paisagem de interior em alguns eventos específicos do dia-a-dia: a rua que está logo em frente à janela é rota para muitos vendedores de frutas, picolé, bolo e afins. Cada um vende seu “peixe” à sua maneira, seja gritando suas ofertas a plenos pulmões como o homem da macaxeira, seja se utilizando de microfones ou megafones em alto volume, a exemplo do “carro do camarão”, que também vende filé de siri, ou do senhorzinho das frutas que repete o mesmo jargão a cada passagem que faz por aqui em busca de um novo ou velho freguês: “hoje tem banana prata, banana cumprida, laranja pêra. Tem mamão, maracujá, melancia!”. 

Entre os meus vizinhos, tem gente de todo tipo: do surfista playboy ao ambulante que sai todos os dias ao amanhecer carregando cadeiras e mesas pra alugar na praia, ou o vendedor do carrinho de milho de copo, que vive em um espaço parecido com um galpão, uma garagem cheia de coisas, onde também vive quem aluga as mesas e cadeiras. Parece ser um lugar onde esses trabalhadores informais se juntam para viver e pagar as contas com o que apuram na correria diária. O comunitarismo dos moradores da rua que vejo a partir da minha janela se resume, na prática, a cumprimentos discretos, de pouca ou nenhuma proximidade, mas de respeito à política da boa vizinhança. Quem não respeita muito essa política, diretamente, são os muitos cães que também são moradores de algumas casas vizinhas. Digo diretamente porque são eles que, em alguns momentos do dia, latem em barulho ensurdecedor, (des)ritmado e em coro, visto que basta um primeiro latido para que rapidamente todos os cães respondam em tom de agonia e desespero. Tem-se uma verdadeira danação, um viralatismo chato protagonizado por cães de raça. Receio que alguns desses cães vivem estressados por uma espécie de vida no cárcere, com poucas horas de passeio fora dos limites de onde vivem, sobretudo os mais barulhentos, que são a única companhia de uma senhora solitária da casa em frente. Os cães de rua parecem ladrar menos. Indiretamente, são os tutores desses cães de raça que talvez não tenham a dimensão do volume dos latidos, do quanto em alguns momentos isso é perturbador para o silêncio e para o sossego de tanta gente, entre os quais idosos e recém-nascidos, como o meu filho Hugo, de apenas 44 dias de vida. É extremamente frustrante para mim, pai de primeiríssima viagem, quando ele acorda com os latidos depois de tanta luta para fazê-lo dormir. Será que o morador do apartamento ao lado se incomoda com o choro do meu filho? Essa é uma pergunta que me faço sempre que o seu pranto parece ultrapassar os limites do razoável para tímpanos e decibelímetros.   

Isso me põe a pensar que a vida em comunidade está em constante movimento, nunca é a mesma o tempo todo. Há menos de dois meses o meu vizinho não ouvia choro de bebê. Há alguns anos eu não ouvia tantos latidos de cachorro. Quando cheguei em meu atual endereço a faixa de mar que eu conseguia ver da minha janela era muito maior. Hoje é consideravelmente menor. Em um período de seis anos construíram torres que atualmente dão um tom de concreto à paisagem, com suas faces mais despreocupadas com a estética voltadas para o meu ponto de vista, pois o que vejo é o fundo desses prédios, as costas deles. Um preço indigesto a se pagar em virtude da especulação imobiliária por essas bandas. 

O que me olha de frente mesmo é o mar. Este parece estar sempre vindo em minha direção e é ele um dos contrapesos ante as intempéries ruidosas da vizinhança e aos dissabores da minha própria vida. Poder contemplá-lo nesse enquadramento da janela é para mim um respiro de liberdade, muito além de ser colírio aos olhos. Se um dia eu tiver de viver longe do mar, os anos perto dele já foram suficientemente capazes de eternizá-lo em mim a ponto de conseguir sentir a sua presença onde quer que eu esteja. Não fosse a minha janela, talvez eu não olhasse pra ele todo santo dia, como vem acontecendo desde que aqui cheguei para morar. É só fechar os olhos que eu imagino sua grandeza, impermanência, marés, cheiros e sons que venho sentindo, observando e absorvendo ao longo da convivência perto dele. Cerca de duzentos metros nos separam, coisa de três ou quatro minutos em um caminhar sem pressa.

Se os latidos configuram a parte caótica dos sons que me chegam pela janela — e aqui rememoro o excelente filme O Som ao Redor (2012), do diretor pernambucano Kléber Mendonça, que aborda com sutileza essa questão do som em comunidade —, o som das ondas quebrando me chegam como sinfonia, trazendo calmaria, lembranças boas, criando um lugar de paz e refúgio. Minha janela me coloca em contato visual diário com o mar, nos tornando íntimos, cúmplices, companheiros. É nesta mesma janela, diante desta paisagem, que monto o meu escritório de trabalho. Foi aqui que escrevi minha monografia na graduação em jornalismo, é aqui que produzo os textos que publico em meu site de jornalismo, é aqui portanto o meu gabinete dos escritos acadêmicos. É também meu cantinho de tomar um vinho, de tocar meu violão, de compor e ouvir música, de fumar e de evocar, por vezes, um voyeurismo à la Janela Indiscreta de Hitchcock, quando por vezes flagro, a olho nu ou com o auxílio de binóculos herdados de meu pai, de tudo um pouco. A minha janela lateral do quarto de dormir é letra e melodia, silêncio e barulho, som e ruído, zoada e sinfonia, por onde vejo uma paisagem com um jeitão meio concrete jungle de ser. Minha janela lateral do quarto de dormir é uma vaidade das boas. Fernando Brant certamente comporia outro clássico se também a partir dela debruçasse seu olhar, sua observação e seu fino trato com as palavras.

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