Liberdade, no Lar ou no Bar

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Depois de tantas bobagens que vimos nos últimos dias, eis que surge uma matéria interessantíssima sobre a esposa do vice-presidente Michel Temer, nomeada como “bela, recatada e do lar”.

Não vejo nenhum problema com as escolhas que cada mulher faz da sua vida, todas são livres para seguir seus caminhos, o importante é o processo, a realização e a satisfação.

Tenho vergonha quando um veículo de comunicação se colocar a favor (de forma recatada) desse tipo de padrão e usa como frase que Temer é um homem de sorte por ter uma mulher “bela, recatada e do lar”.

Devemos nos preocupar seriamente com esses tipos de comentários que aparentemente são inofensivos, mas que carregam uma série de pensamentos e ideologias preconceituosas.

Por questões culturais o termo bela já nos remete ao estereotipo da beleza exterior, quer dizer se a mulher não estiver nos padrões de beleza imposta pela sociedade ela não é bela? As mulheres que são mães, esposas, estudantes, profissionais que lhes faltam tempo para se dedicar a “beleza”, não são belas? Mulher Bela é aquela que apesar de todos os obstáculos e preconceito da sociedade não param de lutar.

Outro termo polêmico a mulher “recatada”, ou “mulher que sabe o seu lugar”, ou “mulher que serve para casar”. Esses tipos de comentários são os mais comuns, geralmente dito por pessoas que acham que mulher com roupa curta ou batom vermelho merece ser assediada e é culpada por ser estuprada.

Em conversa sobre futebol, política e assuntos “masculinos”, mulher não deve participar, ela deve se colocar no lugar “da boa esposa” e fazer companhia às outras mulheres quem sabe até servindo “cerveja para seus maridos”.

Desculpa estragar o pensamento, mas vamos participar das conversas SIM, afinal lugar de mulher é aonde ela quiser, conversando sobre o que quiser.

A outra expressão que concluir a frase “do lar”. Cuidar do lar é algo cansativo e relevante, afinal todos querem morar num ambiente limpo e agradável, independente se o trabalho é feito por homem ou mulher é um trabalho digno.

Quando se utiliza a expressão “do lar” no contexto “bela, recatada e do lar”, fica claro que mulher não deve ficar na rua, “ser uma boa esposa” e ser uma boa esposa significa não se expor. Quem nunca ouviu a velha frase que mulher de bar, balada e outros não é para casar, “mulher de verdade” ficam em casa, honrando seus compromissos de “dona do lar”.

Lugar de mulher é no trabalho, é no happy hour da quarta, quinta e sexta-feira, é discutindo a situação do país, opinando se é a favor ou contra. É surfando. É na Assembleia. É na sala de aula. É na balada com amigos ou sozinha.

“Bela, recatada e do lar” foi apenas uma frase resumida de pensamentos machistas que já ouvimos há algum tempo, é a mulher que muitos homens querem ter (outros não), mas que Temer foi presenteado.

Alguns vão achar até exagerado tudo o que foi dito aqui, outros vão concordar, outros irão criticar, dizendo que sou feminista, mas garanto que não é verdade.

Temer pode ter sorte de ter a mulher “Bela, recatada e do lar”, não quero dizer com isso que ela não seja feliz (essa não é a discussão), assim como o marido de uma juíza. De uma professora de química. De uma cirurgiã. De uma diarista, também são sortudos por terem mulheres no poder, na liderança, salvando vidas.

Tantas mulheres que lutaram e lutam todos os dias pela independência da igualdade, pelo direito do voto, pelo direito de vestir o que quiser, pelo direito de casar e se divorciar e casar de novo.  Todos os dias lutamos pela nossa liberdade tanto no lar, quanto na rua ou num bar, afinal lugar de mulher é onde ela quiser.

Por: Fabiana Santos

Foto: Google

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Sobre o Autor

Sou a garota publicitária, pisciniana, apaixonada pela vida, que tem um gosto dilacerado por seriados que é viciada em café quente. Sobre experiência de vida? Tenho várias... Na falta de amigos já conversei com o espelho, já quis ser astronauta, atriz, escritora, médica e advogada. Já roubei beijos e já confundi sentimentos. Peguei atalhos para chega mais cedo e me perdi no caminho. Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de esquecer. Já chorei sentada atrás da porta do quarto, já fugi de casa pra sempre e voltei em poucos instantes, já fiquei sozinha na multidão. Já vi vários pôr-do-sol, mas sempre me deslumbro como se fosse o primeiro. Já senti medo do escuro, de fantasmas, das pessoas, já tremi de nervoso, já quase morri de amor, mas renasci novamente, já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar. Já chorei por ver amigos partindo e fiquei feliz quando novos amigos chegaram. São tantos momentos guardados em álbuns de fotografia, quase que esquecidos no fundo da gaveta.