“Carta sobre a cura gay”

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Carta ao Senhor Excelentíssimo Doutor Juiz Waldemar Cláudio de Carvalho (ou seja lá qual for o pronome de tratamento que devo usar).

Primeiro gostaria de informar que sou um cidadão brasileiro (mal) assalariado, vivendo num país em crise financeira, tentando diminuir meus gastos a todo custo (apesar da controvérsia) e vou ser sincero contigo: não tenho dinheiro pra virar hetero agora.

Foram anos dando significado à minha vida (gay).

Vamos começar pela profissão.

Passei anos tentando ganhar credibilidade no trabalho que desenvolvo. Sou criativo, irreverente, inteligente, com um humor sarcástico típico, sou dinâmico e audacioso. Características típicas de um bom viado. Como é que agora vou dizer para meus clientes que virei hetero? Não dá, né?! Vou perder mercado porque meu concorrente é tão viado que acho difícil conseguir se curar, deve ser crônico, então vão todos correr pra ele.

Começar uma graduação de engenharia nessa altura da vida? Acredite em mim, estar em uma sala de aula cheia de homens usando camisa pólo, calça jeans e sapatenis não vai me ajudar.

Falando nisso, não tenho dinheiro pra mudar meu closet (um simples guarda roupa). Já cortei quase todas as camisas pra fazer regata, minhas bermudas super estilizadas, jaquetas com broches, bandanas estilosas e mocassim estampado… o que vou fazer com tudo isso? Camisa de botão só amarrada na cintura, vestir aquilo é brega demais. Sinto muito.

Vou ter que largar o vôlei pra jogar futebol? Senhor Juiz, no bloqueio eu sou o melhor. Será um desfalque no time.

E sobre meu vocabulário extenso de palavras que demorei anos para aprender? As amapô nem vão conseguir me entender, porque quando quero dar close eu arrazo e nem as elza se metem comigo quando meto meu carão.

“Brother”, “man”, “irmão”, “cumpadi”… fora de cogitação. E se tiver que falar “TOP” prefiro morrer.

Como nota, Senhor Juiz, a coisa é séria. Não dá pra mudar tudo agora. Precisamos de um planejamento longo, coisa de 2 ou 3 encarnações. Porque nessa vida acho difícil alguma evolução no meu quadro clínico.

No mais, acho que ainda há esperança… estou namorando com um boy magia maravilhoso que nem se diz gay. Excelentíssimo Juiz, assim pode?

Texto: Raí Silva

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